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Porque o espiritismo pena a crescer na França

Publicado 5 novembre 2017 per Andrea Rego  • 1 834 visualizações
Porque o pena a crescer na
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Segundo números de 2016, a França conta com 66,9 milhões de habitantes. Destes, apenas 37% reivindicam um religião, sendo o Islamismo a segunda depois do cristianismo, com 4,7 milhões de adeptos. O restante, que corresponde à maioria, se divide entre os que se dizem sem religião (34%) e os ateus convictos, que representam 29% da população, conforme estudo do instituto Gallup Internacional realizado em 57 países em 2012.

O país tem o maior número de ateus no mundo, o que pode ser explicado por uma história marcada indelevelmente pelo . O movimento filosófico surgido na França, no século XVIII, está no cerne da criação dos novos estados-nações do Ocidente. Um dos seus pilares é a laicidade, que em senso largo designa a perda de influência da religião sobre o Estado e a sociedade.

O advento do Iluminismo, no entanto, não impediu o aparecimento do Espiritismo, doutrina religiosa e filosófica mediúnica, codificada pelo pedagogo francês Hyppolyte Leon Denizard Rivail, usando o pseudônimo , um século depois. Neste momento, em que as experiências de comunicação com os espíritos se propagavam a partir dos Estados Unidos,  a doutrina teria conquistado número significativo de adeptos em solo francês.

Mas a verdade é que o espiritismo pouco prosperou nos séculos que se seguiram neste país. Para se ter uma ideia, no cadastro da ADES SP- Instituições Espíritas no Brasil, constam 12.209 centros espíritas espalhados pelo território nacional. Já na França, berço da doutrina, os centros espíritas “não chegam a 10”, como admite a presidente da Association Parisienne d’Etudes Spirites (), Anita Becquerel. Ela precisa, no entanto, a existência de cerca de 50 grupos formados e/ou em formação.

FALANDO TODAS AS LÍNGUAS

Em entrevista concedida em 2015, publicada no Blog Espirita do Bruno Tavares e veiculada na TV Nova Luz, a coordenadora da APES, a brasileira Anita Becqerel, confirma as dificuldades para o desenvolvimento do espiritismo na França, mas atribui ao ambiente no país e não a uma eventual perseguição, como alguns apressados sugerem em suas análises.

A instituição, que começou a partir de um grupo de estudos, em 1993, possui status de centro espírita e sua sede está localizada em Vincennes, cidade vizinha à Paris. A Casa é frequentada por franceses, brasileiros, gente vinda de outros países, refugiados, fugidos de guerras e até muçulmanos, “com toda a riqueza da sua cultura”, conta ela.  Diversidade que impõe verdadeira abertura ao outro.  “Nós temos que falar todas as línguas, nós temos que estar abertos a todos os conhecimentos”.

Segundo Anita Becqerel, muitos buscam o conforto diante do suicídio de um ente querido – a França ocupa a 47° posição num ranking de 170 países em relação ao número de pessoas que se dão à morte todos os anos -,  outros procuram auxílio às doenças ou às dificuldades de integração ao país. Mas todos sao acolhidos e convidados a comparecer às reuniões públicas, para compreender o sofrimento e evidentemente estudar Kardek.

A Apes possui a mesma estrutura de um centro espírita brasileiro, mas a Casa conta com poucos trabalhadores espíritas. Por isso, é difícil seguir todo o protocolo do atendimento espiritual, onde dependendo do caso as consultas sao personalizadas, como se fossem uma consulta médica. O atendimento espiritual é encaminhado por um trabalhador espírita e o tratamento recomenda ao “paciente” assistir às palestras, receber passes mediúnicos, a ingestão de água fluidificada e a leitura do Evangelho Segundo o Espiritismo. A assistência espiritual é o foco da Doutrina Espírita.

CONCEPÇÕES E PERCEPÇÕES DIFERENTES

Anita Becqerel enfatiza que a Apes é um centro espírita francês, não um centro espírita brasileiro. Eles divulgam o espiritismo para os franceses. A concepção e a percepção da realidade são diferentes, com explicações muito distintas para fenômenos ainda não totalmente desvendados, da ordem daqueles que os espíritas chamam de mediunicos.

Sobre os desafios do movimento espírita na França, Becqerel diz: “é um movimento espírita em reconstrução, está muito difícil, porque não são os fatores externos que nos dificulta, são os fatores internos, é a própria concepção do espiritismo em si. Nós temos poucos elementos comuns fora da Doutrina. A Doutrina ela é a base, mas a concepção, ela é diferente”.

A coordenadora relata que, dos 10 centros espíritas instalados na França metropolitana, apenas quatro são dirigidos por brasileiros. Com os demais entregues à coordenação de franceses, que vêm de outra cultura que não a cultura brasileira, assegura que a Apes mantém uma convivência amistosa e respeitosa, graças à  tolerância às suas diferenças. “Nós estamos aqui com as nossas dificuldades, com as nossas percepções e a nossa cultura, porque a França é um grande país”, afirma.

Ela aponta como uma dificuldade a mais o isolamento dos grupos. “ Aqui não temos a tradição de aceitar um o trabalho do outro”, lamenta. Na verdade, na França, a tradição é que as instituições existam dissociadas da religião, o que não impede que grupos de benévolos façam trabalhos notáveis, caso dos Restos du Coeur. “O movimento associativo francês é muito grande, o francês é muito solidário, se você pede alguma coisa e ele tem confiança, ele dá, ele não é um indivíduo mesquinho, ele é aberto”, afirma.

COLUCHE, UM BENFEITOR FORA DE NORMA

Na origem da maior rede de solidariedade instalada na França, está o humorista e ator francês Michel Colucci. Filho de um emigrante italiano e de uma mãe francesa, Michel Colucci nasceu em 28 de outubro de 1944 e cresceu em Montrouge, na periferia de Paris. Aos 26 anos, no início da sua carreira, ele adota o pseudônimo “Coluche”.

Reivindicando sua grosseria, mas segundo ele, “sem jamais cair na vulgaridade, Coluche mostra muito cedo um estilo novo e sarcástico para a liberdade de expressão, atacando notadamente os tabus a os valores morais e políticos da sociedade contemporânea. Em 1975, ele se torna célebre parodiando um jogo televisivo: Les Schmiblick. Antes de 76, ele ganha papéis de segundo plano no cinema antes de alçar a personagens mais centrais, como em L’aile ou la Cuisse, para em seguida ocupar o alto dos cartazes durante os anos 80, essencialmente pelas comédias. Em 1977, passa à realização, como co-diretor de Vous n’aurez pas l’Alsace et la Lorraine com Marc Monnet. Em 1984, ele ganha um César de melhor ator pelo seu papel dramático em Tchao Pantin, de Claude Berri.

Provocador e agitador por suas tomadas de posições sociais, ele se apresenta às eleições presidenciais de 1981 antes de se retirar, sofrendo por pressões e ameaças. Depois de tornar-se muito popular e apreciado do público, ele funda em 1985 a associação Les Restos du Coeurs, ponto de ajuda aos mais pobres, alguns meses antes de morrer num desastre de moto.

RESTAURANTES DO CORAÇÃO

Reconhecidos por lei como uma associação de utilidade pública, Les Restos du Coeur (em português restaurantes do coração) têm por particularidade contar com o apoio de diversas personalidades francesas e, desde o começo, de uma vasta mediatização, o que chamou a atenção das autoridades, permitindo a criação de novas leis e a conquistar a participação de numerosos benévolos.

Os Restos du Coeur agregam 11 núcleos nacionais, 119 associações departamentais e mais de 2.100 centros de acolhimento. A ajuda alimentar permite uma assistência de urgência, mas representa sobretudo um ponto de contato privilegiado para um acompanhamento em direção à autonomia. Ano passado, 135 milhões de refeições foram servidas pelos benévolos, que somam 71 mil pessoas, número ainda insuficiente para fazer face à demanda.

A associação ajuda pessoas carentes com um campanha de inverno, que vai de novembro a março, e uma campanha de verão, de abril a outubro. 882 mil pessoas foram atendidas no inverno e 422 mil no verão. Os benévolos distribuem cestas com alimentação equilibrada para cozinhar em casa, refeições quentes para os sem-abrigos, uma ajuda especial para os bebês nos centres Resto bébé du Coeur e a distribuição de produtos de higiene, dentre outras ações .

POUCAS REFERËNCIAS

O grande desafio dos centros espíritas franceses é se fazer conhecidos, para que possam se multiplicar e continuar a obra de Kardek. Do pai do espiritismo não são muitas as referências que restam na França, ao contrário do Brasil, onde é venerado como um santo. Uma é o seu túmulo no Cemitério Père Lachaise, em Paris, onde encontra-se um busto em bronze. O jazigo é um dos mais visitados e local de peregrinação de brasileiros.

Na sua cidade natal, uma pequena homenagem repousa numa das paredes da Biblioteca Municipal de . Trata-se de uma fotografia em cores, onde se ler abaixo: “Hippolyte Léon Denizart Rivail aliás Allan Kardek, pedagogo, espiritualista e codificador do espiritismo. Nascido em , 76 rue Sala, 1804-1869. Dom da União Espírita Francesa e Francophone e da Associação Kardek/ 1, rue Docteur Fournier, 37000 Tours – Bicentenário do nascimento/ Allan Kardek/ 1804-2004.

Um medalhão em bronze, com a imagem de Kardek, ofertado por espíritas do Brasil, é outra lembrança que se tem dele em Lyon. O monumento está instalado sobre o passeio da avenida Nord-Sud, atraindo os olhares dos condutores e passantes, causando surpresa a alguns. Uma inscrição esclarece a identidade do personagem. No setor, a poucos metros do local, uma placa foi colocada em 2004. A instalação do monumento, que custou 3.400 euros à comunidade do Grand-Lyon, mereceu artigo publicado em 13 de junho de 2005, no jornal Le Figaro, com o título “ Um Monumento às Fronteiras do Real”.

Mas existe um lugar onde a memória do codificador do espiritismo é cultivada em sua terra natal: o Centro Espírita de Bron Allan Kardek, na cidade de Bron, que faz parte da grande aglomeração de Lyon. O local é o ponto de encontro de médiuns e de pessoas interessadas em conhecer a Doutrina ou precisando de auxilio espiritual. Eles animam sessões gratuitas emprestando vozes e mãos, sob a forma falada , escrita ou desenhada, para comunicação dos espíritos.

Segundo a tesoureira Catherine Perinet, a Casa propõe, todas as quartas-feiras, dois tipos de reuniões de ajuda espiritual, que são abertas a todos e permitem às pessoas em dificuldade moral ou fîsica vir e se beneficiar dos conselhos e também das preces encarregadas ao grupo de orações. Aos sábados, as sessões permitem descobrir os médiuns que psicografam as mensagens e os médiuns de comunicação oral com os espíritos. Em 2007, o Centro Espírita de Bron Allan Kardek recebeu a visita do médium brasileiro Divaldo Franco, momento que resta inesquecível para os que tiveram a oportunidade de assistir as suas palestras.

RESPEITO E LIBERDADE

O ceticismo francês não significa que seja um povo desprovido de valores morais. Mas o mais marcante na personalidade deles é o apreço à liberdade de expressão;  poder ouvir “des blagues” e “des conneries” nas emissões de televisão, definitivamente, é um prazer do qual eles não abrem mão. Aqui se aprende a rir de “tout et n’importe quoi”, sem culpas.

A noção de respeito é particular e outra que no Brasil, onde dificilmente a imprensa satírica gozaria da mesma liberdade da francesa, nem a televisão nem o radio, internet…e não poderia ser diferente: suas Histórias – de brasileiros e franceses – são longe de ser idênticas. No Brasil, onde o espiritismo floresceu como em nenhum outro país no mundo, o respeito está aliado à moral cristã. Para os franceses o respeito existe em sua própria dimensão.

Claro que o humor francês não agrada a todos, fora e dentro do país, abalado por sucessivos atentados nos últimos anos. A laicidade e a liberdade de expressão têm sido postas à prova na França. Mas sempre foi assim. Conflitos religiosos, incompreensões, intolerâncias vão continuar existindo e esta é a maneira que eles encontraram para se proteger. A França, como a Europa, paga um preço pelo seu passado e por um futuro que se anuncia difícil, como de resto  para o planeta.

Com sua moral cristã predominante, o Brasil também é confrontado ao tema da religião, mas em outro senso. A censura e a discussão do que venha ou nao a ser Arte está na pauta do dia, impregnada desses valores. Sem falar na intromissão da religião nos assuntos de Estado, o que representa um perigo real à sociedade brasileira. O Brasil não apenas tem uma bancada religiosa no Congresso Nacional, como uma rede de televisão pertencente a uma igreja que dá sustentação ao grupo de parlamentares, na defesa de interesses nada republicanos.

São nesses contextos diferentes, de um Brasil colonizado por portugueses, povoado de brancos, índios e negros, e de uma França que precedeu  séculos de História, que o espiritismo existe, como também o materialismo. Crias da mesma cultura ocidental, são filosofias que podem coexistir, pois  suas divergências não são intransponíveis, desde que o bom senso prevaleça, é claro.

 

 

 

 

 

 

 

 

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